Gozo e Delírio na Cidade que não me Conhecia

O calor úmido mesclado aos tantos cheiros do hotelzinho barato, janelas sempre fechadas, cortinas encardidas, meu perfume brigando para se impor sobre os outros aromas – suor, mofo, perfumes vulgares, orgasmos passados, lágrimas, sangue e outras secreções, resquício (nem tão) indelével da passagem de outros amantes, amores, prazeres. Férias de julho e eu fazendo a puta na cidade que não me conhecia.


Ali, nua, com aquele menino – que quase poderia passar por meu filho – se esforçando por algo que ele nem sabia bem o que era, e nisso éramos quase iguais. Também eu não sabia pelo que me esforçara tanto nos últimos anos.

Nosso gozo veio em ondas quentes enquanto ele tentava conter o grito.
Fim de tarde, o sol tímido tentava entrar pela fresta da cortina.

Em poucos minutos, revivi. Já era o terceiro encontro do dia. A que troco mesmo? Memória, para quê? Onde foi parar a mulher séria, “de família”, a esposa comportada e fiel? A mãe extremosa e dedicada, se perdeu quando? Ali, naquele quarto, atirada, pensando enquanto procurava com os olhos as minhas calcinhas e alguma outra coisa de que não tinha certeza da existência.

Das poucas certezas, uma era forte: já não era mais a mesma há um bom tempo. E mesmo que não soubesse mais muito bem quem eu era ou o que tinha me tornado, sabia que não ser mais aquela de antes era bom. Sabia que nunca antes tinha sido tão dona de mim, do meu tempo, dona de meu corpo e dos meus desejos.

Do resto? O tempo que diga.

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