Babel

Passava pouco do meio dia quando paramos em frente ao prédio. Taxista pergunta se estou certa do endereço. Estou. Me deseja boa sorte, “que o agito hoje tá grande, moça”.

Desço.

Vendedores de churrasquinho ensaiam uma batucada que lembra samba. Cheiro de fumaça invade minhas narinas, impregna meus cabelos, suja meu vestido. Entro, prédio antigo e mal conservado. Oitavo andar. O elevador, como que por milagre, não empaca nem despenca. Chego a meu destino. Desço. Uma imensidão de bundas balançantes e cacetes eretos, mal disfarçados sob as calças baratas e surradas. Batida de funk pelos corredores, futebol no telão. Uma puta imensa esfrega sua vasta bunda ora em um, ora em outro, na tentativa de arrastar alguém para os cubículos encardidos onde se faz o programa. Cansa. Para e me conta da vida, resmungando sobre o movimento fraco. “Tem jogo da Copa, eles gostam mesmo é do futebol.”

Poucos falam minha língua naquele antro. Nigerianos, muitos, perfumados e lindos em suas camisas coloridas conversam num idioma que não consigo compreender. Arriscam um inglês tão cambaleante quanto o meu, e acabamos quase num arremedo de diálogo, com a ajuda de gestos e olhares. Alemães. Argentinos, chilenos. E bolivianos, esses já mais paulistanos que os outros, conhecedores que eram do lugar e suas manhas. 

Troco de roupa e vou à luta. Troco, não. Melhor dizendo, tiro. Abandono o vestido, mantenho apenas meias e espartilho. Saltos. Perfume bem doce e barato como pede a ocasião. Batom, o vermelho de sempre. Já pro salão!

Caminho entre eles, pedindo a uns e outros que espalhem óleo Paixão por minhas coxas. A pele lisinha, bunda grande de encher a mão. O fazem de bom grado e respeitosamente, aquele olhar de quem tem medo de avançar o sinal e ser repreendido – ou pior, cobrado. Mas não estou pela grana, embora dela não abra mão. Poderia ficar a tarde toda sendo massageada no salão por centenas de mãos diferentes e nem me importaria. Mas o jogo ali é outro. Saio de fininho, desaparecendo na multidão.

Desço pelas escadas, um andar abaixo. Ela me olha lá da porta, canto de olho. Suas feições, seu jeito, me fazem lembrar Verônica – uma Verônica um pouco mais velha e descuidada, talvez uma Verônica com ainda menos sorte que minha Verônica – e ,ainda assim, me fazia lembrar Verônica. Mas Verônica já não há mais, sete anos vão desde que se foi de morte estúpida, gelada, Verônica. Geladas as mãos, gelado e doce o beijo da moça na porta. Entro.

– – –

A minha Não-Verônica me aponta um cliente, guri boliviano aparentando seus 18 anos, pouco mais, pouco menos. Tremendo o garoto. Puxo pela mão até o cafofo miserável e quase limpo, não fosse pelos restos e cheiros dos muitos casais que se deitaram naquele lençol depois da última troca. Quase se podia sentir o calor daqueles tantos corpos ainda pairando por ali, energia pura. Quinze minutos é o período – ou o tempo de gozar, o que vier antes. O negro só queria oral, que a mulher não deixava em casa – e olha que chupava bem. Com outro, me deito. Volta o negro, paga mais 15 minutos que agora quer meter. E assim foi a tarde: paus estrangeiros e nacionais num vai e vem gostoso e repetitivo até o anoitecer. 

Pouco conversávamos e eu gostava disso. Sem formalidades. Sem disfarces. Sem perguntas tolas, sem precisar inventar resposta. Ao contrário dos clientes de site, que pra tudo queriam justificativas. Adoravam perguntar – “mas por que faz isso? Tua família sabe? Tu não tens medo? Tá guardando dinheiro?” – cinicamente, como se realmente lhes interessasse ou acreditassem nas minhas respostas, como  se não levássemos ambos a mesma vida de merda amortecida por orgasmos vazios.

Ali, não! Ali eu não era ninguém. Sem nome e muito menos sobrenome, sem história, sem passado.

Se cobrava por sexo – e cobrava, que viver, que estar longe de casa, comer mal e dormir pouco não era barato – se cobrava por sexo era também por isso: não ter que contar nada, não ter que inventar passados, não precisar fugir de inventar futuros nem mentir orgasmo quando orgasmo não vinha. Não precisava inventar desculpa pra não ver mais. Nem desculpa pra estar com outro, se todos eram o outro. Sexo puro, sexo pelo sexo, cada um cuidava de si e tratava de se despedir logo que aquilo nâo era namoro. 

Voltava pro flat exausta, acabada, feliz. Naqueles dias, dormia pesado e não sonhava.

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2 Replies to “Babel”

  1. Muito bom o texto, me lembrou o prédio da Alameda Barão de Limeira, nos mínimos detalhes (as vezes eu subia os 8 andares de escada pra ver se tinha alguma coisa boa, ou já ia num andar específico pra encontrar uma garota conhecida)

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