Dá pra Ser Muito Puta e uma Intelectual ao Mesmo Tempo (ou “a falsa dicotomia raba-cérebro” ataca novamente)

Existe uma coisa à qual Clara Averbuck chama de “a falsa dicotomia raba-cérebro”, e eu confesso que não foram poucas vezes em que isso me pegou de jeito.

Logo nos primeiros tempos de puta e ativista, logo que tive meus primeiros textos publicados em sites por aí. Talvez até antes disso: eu apenas escrevia em meu blog. E cara, vamos ser honestas, escrever em blog nem podia ser chamado de ativismo. Mas bem nessa época, fui pega (será que de surpresa?) por comentários irônicos e muito pouco elogiosos vindos de homens – que às vezes escreviam na área de comentários do meu próprio blog, outras vezes, criavam tópicos em fóruns de avaliação de serviços de putas.

Quem era essa puta que não se restringia a postar relatos elogiosos de programas com seus clientes? Certamente, segundo eles, eu era uma mulher feia e com muito tempo livre. E isso como se eles mesmos não tivessem muito tempo livre, tanto tempo livre que se davam ao trabalho de escrever sobre o que eu, na minha puta insignificância, escrevia – mesmo que minha escrita não lhes afetasse diretamente!

Quase que imediatamente após essas pseudocríticas, passo a receber menor número de telefonemas de homens desejosos de agendar horários. Felizmente, ainda por um período, minha agenda se manteve cheia: mais objetivos, os “homens certos” me procuravam e nos divertíamos,

Na contramão deste “fenômeno”, anos depois, vi a Clara sofrendo com esse mesmo estigma, mas no sentido inverso: pessoas, muitas dessas pessoas mulheres, a condenavam por expor publicamente seu gosto pelo pole dance, por participar de competições e postar fotos sensuais em suas contas nas redes sociais, como se isso de algum modo pudesse invalidar sua sólida (e extensa) carreira como escritora, mesmo com nove livros publicados e um trabalho intelectual incrível espalhado em inúmeros veículos.

Isso evidencia os espaços que esta sociedade quer permitir que as mulheres ocupem.

Ou somos as boas mulheres, de quem até pode se aceitar que pensem, quem sabe até que publiquem.

E as más mulheres, aquelas mulheres que podem dançar.

Uma fábula bastante tosca, algo como a cigarra e a formiga revisitada.

O fato é que não há uma real separação entre a bunda e o cérebro. É tudo corpo, e tudo pode. Tudo podemos.

Neste sentido, me pergunto `às vezes se, para uma puta, o singelo ato de escrever não acaba sendo quase um ativismo em si, quem sabe do mesmo modo que o adonar-se de sua própria sexualidade/sensualidade, o uso, exposição, disposição, de nossas próprias corpas “como bem entendermos” se torna quase protesto.

Falo aqui a partir de um lugar onde a posse do meu próprio corpo me é constantemente negada: meu corpo disponível, meu corpo disposto, meu corpo em tese colocado a serviço do prazer alheio. Retomo esse corpo. E essa língua, e essa palavra, tão minha quanto seria se eu vivesse de escrever, e não de balançar a raba.

Está respondido: você pode gostar de sexo e seguir pensando.

É tudo corpo: mente e clitoris, cérebro e bunda. E é tudo seu.

A Boa Puta pode muito bem ser uma intelectual quando lhe convém.

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