Delivery ético, pandemia e outras obscenidades

Entre a minha boca e a tua, há tanto tempo, há tantos planos e há agora também uma distância intransponível ou nem tanto: nosso beijo virou risco de morte. Nenhum rock’n’roll – no sex, no drugs. Num mundo estéril e esterilizado por litros de álcool gel e água sanitária, o perigo ainda te espera na esquina.

Já estava lá, já estava lá mas não era visível. Agora, mais visível do que nunca, ainda que você não o enxergue.

Sem pânico: sobreviveremos, muitos de nós.

E não, eu não vou ficar aqui na frente dessa tela vazia por horas apenas pra repetir o que quase todo mundo tem dito: que o mundo será muito melhor depois disso tudo, que as pessoas serão mais solidárias umas com as outras, e esse papo furado  todo que a gente já sabe que não passa disso mesmo – tremendo papo-furado amenizador de culpas.

Isso tudo vai passar e pode apostar, seremos as mesmas pessoas repugnantes de sempre ou ainda piores, por hoje já seguimos considerando super ok pagar para que outras pessoas se exponham  aos riscos que não queremos correr. Temos dinheiro e por isso, não precisamos nos expor, afinal: há quem o faça por nós, e por uma mixaria.

Olha só, Ana: não vá ao mercado, tu não precisa correr risco enquanto houver quem precise se arriscar por ti sem te cobrar muito. 

Alex Castro, amigo e escritor, questiona, em uma de suas recentes newsletters: “seria ético pedir delivery de supérfluos?”

Eu amplio o dilema: seria ético pedir delivery de qualquer coisa enquanto há um vírus letal lá fora, louco pra comer qualquer um de nós por dentro?

Seria ético terceirizar o risco?

É ético terceirizar a morte?

Em verdade, há um debate anterior sobre o mesmo tema: seria ético que eu receba a minha comida quentinha em casa enquanto, para que isso aconteça, alguém precisa se molhar?  Existe consumo ético no capitalismo? Existe consumo ético? Mas e se eu não pedir delivery, de que se sustentará o entregador e sua família? 

Porra, Marcelo, não!

Eu não vou bater na tecla já tão enferrujada da falência do sistema, simplesmente por que não temos aqui em estoque outro sistema prontinho pra por no lugar desse. 

Eu só queria te dizer que, bom… as pessoas não serão pessoas melhores depois dessa pandemia. E que não, nem o mundo sairá melhor dessa pandemia. É só mais uma pandemia, deixa eu te pedir: não apela pra esse ecofascismo sinistro, não pra cima de mim: o mundo talvez quem sabe até ficasse melhor sem os humanos, a Terra mais limpa e aquele teu blablabla todo que explode mesmo é em cima dos pobres. E sei lá, eu sou pró-humana, saca?

Eu sou humana, Marcelo, eu faço parte disso, eu faço parte dessa raça que tu finge querer extinta (finge, sim: não és tu mesmo um desses humanos?). Eu sou, e lutarei até o último momento para que fiquemos por aqui mesmo. Para que a humanidade (da qual eu e – não se faça de surpreso, você também! – da qual nós fazemos parte, fique por aqui mesmo.

Vou, sim, lutar para que a raça humana sobreviva. Vença, quem sabe, afinal. E tomara que a gente consiga encontrar modos melhores para seguir sobrevivendo, mas se não der, é isso.

Tipo, SIM, eu gosto dos bichos, mas nunca, nunca direi que prefiro os bichos aos humanos.

Sai pra lá. Temos muito a fazer por aqui ainda.

(Tudo bem, quem sabe se eu fosse um vírus meu ponto de vista pudesse até ser outro. O da defesa dos vírus. Mas caralho, não sou um vírus.)

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