EUA: trabalhadoras sexuais estão estressadas, ansiosas e deprimidas em meio à pandemia de COVID-19

(Joaquin Sarmiento/AFP via Getty Images)

O novo coronavírus causa perda de renda significativa e muitas trabalhadoras sexuais não dispõem de uma rede de segurança.

Por Nicole Karlis, para Salon

Tradução: Monique Prada

Na medida em que os serviços não essenciais estão sendo fechados para deter a propagação do novo coronavírus, trabalhadores norte americanos estão sofrendo com demissões, cortes salariais e muita incerteza financeira. Enquanto trabalhadores registrados estão sendo instruídos a pedir seguro desemprego e\ou possivelmente receber ajuda através do Families First Coronavirus Response Act, aprovado pelo Congresso norte americano, é muito pouco provável que as trabalhadoras sexuais norte americanas possam se beneficiar de quaisquer uma dessas medidas.

Trabalhadoras sexuais não tem direito a seguro desemprego e são impedidas de acessar vários aspectos da economia formal tais como licença médica remunerada e planos de saúde,” disse por e-mail a Salon Emily Coombes, pesquisadora e ativista que atua em Las Vegas.” No geral, o público precisa saber que não somente as trabalhadoras sexuais estão sendo fortemente atingidas pela disseminação desse vírus e pela resposta a uma crescente pandemia global, mas também as trabalhadoras sexuais estão sofrendo com a falta de diálogo com o poder público sobre formas de apoio durante o período de auto isolamento.”

A Las Vegas Strip fechou, colocando seus funcionários numa situação precária – particularmente as trabalhadoras sexuais. O trabalho sexual é notoriamente um trabalho precário, o que significa que muitas trabalhadoras sexuais já vinham lutando com dificuldades para fazer frente às suas despesas antes da pandemia, especialmente aquelas que já são mais marginalizadas na sociedade.

“As trabalhadoras sexuais negras, as trabalhadoras sexuais transexuais e queer, as trabalhadoras sexuais que enfrentam condições instáveis de moradia, as trabalhadoras sexuais que sofrem de doenças crônicas ou vivem com diversidade funcional,” diz Coombes. “Não há essencialmente redes de segurança para trabalhadoras sexuais em caso de uma paralisação massiva ou uma quarentena como a que estamos vivendo agora; tudo com o que as comunidades de trabalhadoras sexuais acabam muitas vezes podendo contar é com ajuda mútua e fundos de emergência.”

Coombes está ajudando a organizar um fundo de ajuda mútua para trabalhadoras sexuais em Las Vegas via GoFundMe. Uma busca rápida por “trabalhadoras sexuais” e “COVID-19” no GoFundMe revela que muitos outros grupos estão recorrendo à plataforma online de arrecadação de fundos. No entanto, criar e publicizar uma campanha de arrecadação de fundos não é uma habilidade universal; nem todas as trabalhadoras sexuais possuem o equipamento necessário, ou aptidão para o uso de mídias sociais, para se articular com tanta rapidez.

No Brooklyn, New York, trabalhadoras sexuais estão se organizando junto ao Sex Workers Outreach Project-USA (SWOP), para eventualmente tomar parte em uma greve de pagamento de aluguéis. Elas também estão arrecadando dinheiro através do GoFundMe para um fundo de ajuda mútua. Molly Simmons, representante do SWOP, disse a Salon que o fato de esta pandemia global estar ocorrendo exatamente neste momento torna tudo particularmente mais difícil para as trabalhadoras sexuais pois janeiro e fevereiro são meses tipicamente fracos.

“É o início do ano, quando as pessoas começam a pensar em seus impostos e coisas assim, então nós já tínhamos pessoas que estavam passando por apertos financeiros,” disse Simmons. “Não só essa pandemia realmente arruinou uma parte da indústria, e boa parte do nosso trabalho, especialmente em determinados lugares, é que justamente veio particularmente em um momento realmente difícil; um monte de pessoas foi subitamente empurrado para um futuro financeiramente incerto, o que é realmente assustador.”

“As pessoas realmente não têm apoio institucional, e é por isso que somos forçadas a confiar em ajuda mútua a maior parte do tempo”, acrescentou Simmons.

Para Tea, uma co-representante do SWOP que prefere não revelar seu sobrenome, quatro encontros foram cancelados no início de março, quando começaram a surgir notícias sobre o COVID-19.

“Para mim, que normalmente não atendo com muita frequência, ter quatro encontros cancelados em uma ou duas semanas representa perder a maior parte da minha renda”, disse Tea. “Como alguém que é uma trabalhadora sexual completa, eu atualmente não vejo muitos clientes e estou acostumada a grandes oscilações de renda… a fartura e a escassez que isso traz é similar ao que acontece em outros trabalhos como freelance, mas se não nos preparamos — se eu não tenho algum tipo de poupança, então eu não consigo pagar o aluguel . . . . Penso que muitas trabalhadoras sexuais, se conseguem, tem algum guardado mas isso é raro.”

Não é apenas o isolamento social que está afetando as trabalhadoras sexuais, mas as demissões sofridas por seus clientes afetaram seu fluxo de trabalho.

“Nós exercemos um serviço não essencial, no sentido de que não somos como um restaurante ou uma mercearia,” disse Tea. “Então, tão logo alguém comece a sentir o aperto, eles param e começam os cancelamentos.”

Maxine Holloway, uma trabalhadora sexual que atua na Bay Area, disse a Salon que percebeu uma desaceleração no início de março. Ela também tem sintomas de COVID-19 — tosse seca e dificuldade de respirar — o que é preocupante.

“Eu não estou trabalhando, e estou estressada sobre a renda que perdi e a renda que continuarei perdendo,” disse Holloway a Salon. “Há um bocado de stress e ansiedade sobre os próximos acontecimentos; o trabalho sexual é minha principal fonte de renda e eu fui mãe recentemente.”

Bella Robinson, trabalhadora sexual de Rhode Island e diretora executiva de Coyote RI, contou a Salon em uma entrevista que ainda está sendo contatada por homens à procura de atendimento, mas está em auto isolamento social. Ela parou de aceitar clientes em 9 de março.

“Eu estou tendo a oportunidade de enviar textos em resposta e dizer ‘você tem lido as notícias?”, disse Robinson, acrescentando que está preocupada. “Isso afetará as trabalhadoras sexuais mais pobres, o que já temos visto acontecer a partir da implantação das leis SESTA-FOSTA.”

Robinson indicou um documento sobre redução de danos, escrito por Malana Krongelb, que inclui recomendações úteis para trabalhadoras sexuais.

SESTA-FOSTA, um acrônimo para um pacote de duas medidas chamado “Stop Enabling Sex Traffickers Act and Allow States” e “Victims to Fight Online Sex Trafficking Act” aprovado pelo Congresso norte americano em 2018, teve o efeito colateral de marginalizar ainda mais muitas trabalhadoras sexuais e tornar seu trabalho mais perigoso e difícil. Como resultado dessas leis gêmeas, o Craigslist foi forçado a encerrar sua sessão de anúncios pessoais. Websites usados para selecionar clientes em potencial, que eram recursos cruciais usados por muitas trabalhadoras sexuais para garantir sua segurança, foram tirados do ar também.

Independente disso, muitas das trabalhadoras sexuais com quem Salon conversou estão esperançosas sobre conseguirem se organizar em meio a essa crise. “A nossa comunidade realmente se uniu,” diz Robinson.

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